Morre Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita

Acionista do Grupo Estado e diretora do Suplemento Feminino, era filha de Francisco Mesquita

Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita
Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita comandou o Suplemento Feminino entre 1960 e 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

JOSÉ MARIA MAYRINK – O ESTADO DE S. PAULO
24 Setembro 2014

São Paulo – Morreu na madrugada desta quarta-feira, 24, aos 86 anos, em São Paulo, a jornalista Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita, diretora do Suplemento Feminino de O Estado de S. Paulo, jornal do qual era acionista. Filha de Francisco Mesquita e Alice Vieira de Carvalho Mesquita, era irmã de José Vieira de Carvalho Mesquita (Juca) e de Luiz Vieira de Carvalho Mesquita (Zizo), ambos falecidos. Maria Cecília foi velada no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e cremada no Cemitério Horto da Paz, em Itapecerica da Serra. A cerimônia de cremação, assistida por membros da família e amigos, foi realizada às 16 horas. Deixa sobrinhos, sobrinhos-netos, sobrinhos-bisnetos e primos.

Maria Cecília tinha 4 anos quando a família embarcou para o exílio em Portugal, após a derrota da Revolução Constitucionalista de 1932. No episódio, os Mesquita foram presos e deportados por terem enfrentado nas trincheiras o presidente Getúlio Vargas, que haviam apoiado em 1930. Era a única menina, a caçula de três irmãos e três primos. Os filhos de Julio de Mesquita Filho e os de Francisco Mesquita, todos crianças, conviveram dois anos no litoral de Estoril, perto de Lisboa, como se fossem irmãos. Assim continuaram, ao voltar ao Brasil. De 1940 a 1945, período em que a ditadura do Estado Novo ocupou o Estado, Francisco Mesquita acolheu os sobrinhos em casa, enquanto Julio Filho vivia seu segundo exílio, dessa vez em Buenos Aires.

Renovação. Ao retomar o jornal, em dezembro de 1945, Julio e Francisco Mesquita renovaram a empresa, que se encontrava em boas condições financeiras, apesar de ter passado cinco anos sob censura nas mãos do governo. Esses cinco anos não entram na história do Estado, então ocupado por prepostos da ditadura. Os Mesquita construíram uma sede moderna na Rua Major Quedinho, no centro, onde mais tarde foram instalados também a Rádio Eldorado, a Agência Estado e o Jornal da Tarde.

Os filhos seguiram as carreiras dos pais – Julio, Ruy e Luiz Carlos (Carlão) com Julio de Mesquita Filho na redação; Juca e Zizo, com Francisco Mesquita na administração. Maria Cecília começou a trabalhar no jornal em abril de 1960 como editora do Feminino, que se chamava então Suplemento Feminino.

Foi a convite de Carlão, o primo mais moço, quase de sua idade. Dirigiu o Feminino até 2011, quando ele deixou de circular. “Quero que você venha trabalhar no jornal”, disse Carlão, convocando-a pelo telefone. Maria Cecília ficou apreensiva porque “costumava visitar as oficinas gráficas desde criança, mas não entendia nada de jornalismo”. Manifestou essa apreensão, conforme revelou em entrevista na comemoração dos 50 anos do Feminino, lançado em 1953. Carlão insistiu e Maria Cecília assumiu a direção do Feminino, depois de consultar o redator-chefe do Estado, Cláudio Abramo.

Sucedia na tarefa a Maria do Carmo de Almeida, a Capitu, primeira editora, que assinou crônicas até julho de 1958, quando se despediu com um texto sobre a participação da mulher no jornalismo. “Hoje as saias são comuns nas redações”, escreveu Capitu, acrescentando que o jornal, “como ofício árduo e heroicamente realizado”, era uma conquista para as mulheres.

A capa da edição de 24 de dezembro de 1972, comemorativa do nº 1.000, tinha uma foto da equipe do Suplemento Feminino, com a diretora Maria Cecília sentada em uma cadeira de vime entre seus colabores – 11 mulheres e 4 homens. Entre as mulheres, Maria Lúcia (Lucinha) Fragata, que chefiou a redação durante 37 anos. Começou em julho de 1967, vindo do Jornal da Tarde, no qual editava uma página feminina. Lucinha reformulou, com a aprovação de Maria Cecília, sem demitir ninguém. Redatoras e repórteres de sua época, como Berenice Santos Guimarães e Dinah Bueno Pezzolo, continuaram como colaboradoras do caderno, depois de se aposentarem. A editora que substituiu Lucinha em 2003, Roberta Sampaio, já trabalhava na redação, ao lado de Vera Fiori e Fabiana de Nadai Caso, outras veteranas. O Feminino recebia de 30 a 40 cartas por dia e os concursos que promovia sobre trabalhos manuais chegaram a ter 7 mil concorrentes.

Jardinagem, economia doméstica e trabalhos manuais eram seções obrigatórias, que iam sendo sempre reformuladas. As edições passaram a girar em torno de um tema central, com especialistas escrevendo sobre questões de sua área. O pediatra e gastroenterologista Eraldo Fiore assinou uma coluna por mais de 20 anos. O Suplemento Feminino, que em seus primeiros tempos dava espaço a assuntos curiosos, como o combate a insetos perniciosos, também se dedicava a temas atuais e se interessava por personagens famosos. Em maio de 1964, documentou uma exposição de Tarsila do Amaral, em Veneza. Até então em formato berliner, passou a ser editado em tamanho standard em 1970, quando virou tabloide. “Eu não gostava do tamanho standard”, disse Maria Cecília em maio de 2009, quando o Feminino chegava ao nº 3.000. Se não gostava de alguma coisa, sempre buscava alternativas.

Fazenda. Maria Cecília morava em uma fazenda herdada de Francisco Mesquita em São Manuel, a 268 quilômetros de São Paulo, onde gostava de receber parentes e amigos nos dias de festa e aniversários.

No Natal, queria todos ao lado dela. Mandou construir um campo de futebol para os sobrinhos-netos. Era torcedora do São Paulo e sempre acompanhava os jogos do time. “Ela sempre foi solidária, generosa e muito festeira”, disse Marina Cerqueira César, viúva do arquiteto Roberto Cerqueira César, primo de Maria Cecília. “Fomos muito amigas a vida toda e eu sempre participei das festas que Maria Cecília dava tanto na fazenda como num apartamento que ela tinha em Guarujá”, acrescentou.

“A vida de Maria Cecília era o Suplemento Feminino, mas ela também adorava a fazenda, onde se reunia com a família e fazia questão de agradar a todos, a começar por servir a comida de que cada um mais gostava”, lembra Belinha Mesquita, sua sobrinha. Da fazenda ou da praia, a diretora controlava a pauta do Feminino pelo telefone, em contato constante com os colaboradores, mas fazia questão de estar na redação nos dias de fechamento da edição, de quarta a sexta-feira. Viajava então para a Capital, onde tinha flat no bairro de Itaim. Lia todo o material a ser publicado, dava orientações, apontava falha, acrescentava sugestões. Era minuciosa, detalhista. Ao assumir a direção do Feminino, Maria Cecília fez uma reformulação geral.

Reportagens. Colunas com roteiros de restaurantes, cinemas, teatros e exposições deixaram de ser publicadas, pois já eram divulgadas em outras seções do Estado. As notas sociais também desapareceram, porque, como explicou a diretora, interessavam a poucas leitoras. A prioridade era para textos e reportagens que fossem de utilidade para todas as mulheres, tanto para aquelas que cuidavam da família, como àquelas, cada dia mais numerosas, que trabalhavam fora de casa. Maria Cecília dizia que toda mulher gosta de moda e de se vestir com elegância, mesmo que não siga rigorosamente a moda.

Entre todas as mudanças, foi marcante a substituição de fotos estrangeiras pelas produzidas no estúdio do Feminino, que tinha fotógrafo exclusivo, e também pelo departamento de fotografia do jornal. “Se podemos fazer fotografias de alta qualidade, por que comprar de fora?”, argumentou Maria Cecília. As fotos compradas de agências de notícias eram raras. Maria Cecília atendia a todas as reivindicações de Lucinha Fragata, quando ela pedia mais redatores, levando as solicitações à direção da empresa. Estava também atenta às críticas e sugestões das leitoras, o que fez com que o Suplemento evoluísse sempre.

Fonte: O Estado de S. Paulo – 24/09/2014

 

 


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