Ajuda ao ‘Clarín’ é prioridade, avisa presidente da SIP


Sociedade Interamericana de Imprensa SIP

Entrevista / JAIME MANTILLA

Por Gabriel Manzano em 23/10/2012 na edição 717 [ Reproduzido do Estado de S.Paulo, 19/10/2012; título original]

Eleito, na terça-feira (16/10), presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), o equatoriano Jaime Mantilla tem, entre suas primeiras iniciativas, “analisar a situação das liberdades, especialmente na Argentina”. Ele define as ameaças que pairam sobre o jornal Clarín como “imensamente graves” e admite que pode ir a Buenos Aires ajudar o jornal nos contatos com o governo. Outra de suas prioridades é defender a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH), contra os ataques dos governos bolivarianos.

Em entrevista ao Estado, Mantilla adiantou que pretende vir “logo” ao Brasil e que pedirá uma audiência à presidente Dilma Rousseff. Deixou claro, também, que nenhuma autoridade o proibiu de sair do Equador para vir à Assembleia-Geral da SIP, realizada em São Paulo – mas confessou ter ficado receoso de deixar seu jornal em Quito, o Hoy, num momento em que ele sofre enormes pressões do governo do Equador.

Sua ausência no encontro da SIP em São Paulo causou estranheza. O governo do Equador o proibiu de viajar?

Jaime Mantilla – Não houve nenhuma proibição. Não viajei ao Brasil porque nestes mesmos dias se abria a campanha eleitoral. As pressões contra meu jornal, Hoy, e a imprensa independente têm sido muito fortes. Não poderia me arriscar a ficar fora no momento em que enfrentava grandes problemas internos.

O sr. então pode viajar pelo continente à vontade, para cumprir suas tarefas presidenciais?

J.M. – Estou livre para sair sempre que a SIP precisar de minha presença, em todo o continente. Espero ir logo ao Brasil, país pelo qual tenho muita simpatia, o mais cedo possível. Pensamos em pedir uma audiência à presidente Dilma, cuja ausência em São Paulo causou estranheza.

Quais as primeiras medidas que tomará como presidente?

J.M. – Primeiro, vamos analisar a situação das liberdades, especialmente na Argentina, pela possível retirada das frequências do sistema de TV do Grupo Clarín. Vigiar, no Equador, a campanha eleitoral. Apoiar o sistema interamericano, em especial a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e a Relatoria Especial para Liberdade de Expressão. Realizar uma ampla campanha entre jornalistas do continente para defesa conjunta da livre expressão e do direito cidadão de informar-se e opinar livremente.

O diário Claríncaminha para uma situação difícil, a de perder algumas garantias legais no dia 7 de dezembro. De que modo a SIP pode ajudá-lo?

J.M. – O problema do Clarín é imensamente grave. Devemos estudar as bases legais – o que já estamos fazendo – para organizar uma missão a fim de refletir e falar com as autoridades para que não se consume uma violação ao direito de informar, expressar e comunicar.

A proteção a jornalistas, como destacado na Assembleia, é um dos temas mais urgentes. Tem ideias específicas do que fazer?

J.M. – O mais dramático é que, na situação atual, a defesa da livre expressão não está mais nas comunidades, como dizia (o escritor Albert) Camus, mas no indivíduo. Por isso é necessário dar toda força ao jornalista independente e honesto.

Um grupo de organizações no Brasil fez críticas à SIP, definindo-a como “um cartel” e ironizando seus dirigentes como “intocáveis”. Fala-se também em tentar de novo aprovar uma lei de controle da mídia no ano que vem. Como encara essas iniciativas?

J.M. – Todo cidadão tem direito a expressar livremente sua opinião. Esse é um princípio que sempre defendemos e pelo qual sempre lutamos. Há ocasiões em que as opiniões das pessoas ou de grupos se misturam a todo tipo de preconceito. Aspiramos unicamente a que a cidadania responsável analise primeiro o que vai dizer, pois parte desse direito de manifestar-se livremente é, fundamentalmente, fazê-lo com pleno conhecimento dos fatos e responsabilidade quanto ao que disserem.

O sr. acredita que a oposição da Venezuela, agora um pouco mais fortalecida, conseguirá pressionar por mudanças na situação da imprensa do país?

J.M. – Acho que a oposição da Venezuela conseguiu um grande triunfo nas últimas eleições. Conseguiu unir um vasto grupo de cidadãos em torno de uma tese para recuperar a democracia. Seu desafio será manter unido esse sonho de mudança.

No discurso à Assembleia de São Paulo, o sr. faz uma previsão de que “os ataques governamentais aumentarão a partir da campanha eleitoral que começa agora”. De que temores o sr. fala?

J.M. – Temos, sim, esses temores. A campanha no Equador é tremendamente irregular e injusta para os que dela participam, salvo o presidente, que detém todos os meios econômicos e a maior parte dos meios televisivos, ligados aos jornais sob controle oficial, para proclamar suas bondades. Os demais candidatos enfrentam não apenas as limitações de tempo, espaço e recursos. Aos jornais, por uma alteração no chamado Código da Democracia, tentam impedir-nos de falar dos candidatos 45 dias antes das eleições.

[Gabriel Manzano, do Estado de S.Paulo]

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